Entre Compassos e Descompassos


Têm dias em que a tecla "slow motion" parece ter sido ativada em minha tela-janela / janela-tela...
O vento sopra preguiçoso as folhas verdes desbotadas das árvores. O pé de cidreira, que assiste minhas viagens matinais pelos mundos de meus autores favoritos, nunca o vi tão calmo. Parece que bebeu de si mais do que sempre.
Os pássaros se arrastam pelo céu, como bichos-preguiça de asas. Observando-os lembro de mim quando criança nadando contra as correntes nas cachoeiras, ou de mim - adulta - repetindo a brincadeira na vida. Deixar-se levar é mais fácil, mais rápido, mas não aproveita muito a benção de ter asas - que pássaros e crianças têm.  Penso se esse fôlego curto se deve a essa preguiça do vento, que não chega a soprar aqui como preciso ou se deve-se ao sol fervilhante (meus sentidos notam que fervilha), que não vejo daqui, a não ser iluminando esse azul bonito do céu dos pássaros (e das crianças) que contrasta com a cidreira desbotada.
Vejo tudo mais veloz quando, em mim, tudo está mais lento.
Mas hoje estou veloz. Tão veloz que só vejo rastros. As emoções são como aviões a jato, alígeras e barulhentas. Deve ser o sonho de voar construindo (tal qual diz-se de Arquitas) e testando máquinas voadoras. Há dias em que os relógios desregulam, a alma não consegue dançar no ritmo lento do resto do tempo. Ela dá o tom e o ritmo, mas o mundo não parece capaz de correr naquele 'depressa'. Há dia que a alma vive dias, sofre dias, se alegra dias, se cansa dias, amadurece dias... e o relógio do mundo só foi capaz de marcar umas poucas horas.
As palavras que rabisco são flaps que me ajudam a ralentar, a fim de ajustar com as horas, o compasso, os sonhos, as máquinas voadoras... 
Devagar, alma, céu, pássaros, pé de cidreira, sol, vento, fôlego, voltam a dançar no mesmo ritmo. E, porque dançam no mesmo ritmo, percebem-se mutuamente. Eu volto a entender o mundo lá fora, e o mundo lá fora me entende uma vez mais. E outra, e outra, e outra... 
A vida é afinamento e também destoação, compasso e descompasso, intercalando-se ou fundindo-se. 
Viver é não deixar de fazer jus as asas com que fomos abençoados, mas é também saber o momento de descansar na corrente.




*Imagem: escritosmiacouto (Instagram)

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