Gosto de Puro Hoje


"Você verá que a emoção começa agora
Agora é brincar de viver
Não esquecer, ninguém é o centro do universo
Assim é maior o prazer
...
E eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho
Como sou feliz, eu quero ver feliz

Quem andar comigo, vem"
(Guilherme Arantes)



Enquanto revejo a foto e escuto a música (que mora em minha playlist sagrada) lembro-me do que a *'Pessoa' que registrou esse momento contou a respeito dos pássaros:
"Eles pareciam brincar de fugir um do outro..."

Tantos espetáculos acontecem gratuitamente e graciosamente diante de nossos olhos todos os dias e, pra onde nós estamos olhando que quase nunca vemos? O sol todos os dias descansa no horizonte; algumas pessoas param e assistem. Dão um tempo em suas vidas tumultuadas, tiram de diante de seus olhos as telas lotadas de planilhas, pastas, códigos, pães de cada dia. Descansam seus olhos das vitrines etiquetadas obrigatórias, deitando-os nas redes do 'milagre da beleza'. Bem disse o poeta que **"quem experimenta a beleza está em comunhão com o sagrado". Concordo tanto com isso!
Há quem reúna suas dúvidas, dores, angústias, cansaços do dia - da semana - da vida, e os leve consigo na esperança de que eles durmam no horizonte com o sol que assistem; e quem leve suas lágrimas consigo quando vai comungar com o sagrado olhando pro mar, na esperança de que todo o sal de si vire mar também... e encontre, docemente, o horizonte que é do sol e do mar, mas também de quem chora. Nosso sal, que salga a água doce que o leva na corrente, com os nós cegos de cada dia na garganta. Deve ser por isso que o mar é salgado. É feito de nós de sal desatados.
E amanhecemos novos - novo sal, nova água doce.
Há os que levam consigo seus sonhos, desejos, esperanças para, em observando barquinhos e velhinhos como quem celebra sacramentos, nunca esquecerem que há anos os velhinhos amam e sonham, sem nunca desistir de fazê-lo e é por isso que ainda vivem, é por isso que vivem todos os que vivem (***"morremos não quando deixamos de viver, mas quando deixamos de amar/sonhar", alguém disse); e para lembrarem também que os barquinhos com mais marcas e danos têm também muito mais histórias pra contar. Baús abertos cheios de dores e risos, de lembranças e saudades. Baús cheios de vida dentro, somos nós, tais como o barquinho colorido-desbotado mais velhinho.
Ali, na viração do dia, em que o Sagrado nos faz companhia, somos como aqueles passarinhos que brincam. Brincam porque são feitos de levezas. Brincam porque não têm fome de nada, a não ser do hoje mais lindo possível, o pão deles de cada dia. Brincam porque sabem que o amanhã só deve acontecer amanhã e que vivê-lo nos hojes é não viver nenhum hoje. E quem não vive os hojes nunca terá amanhãs, pois eles são feitos de hojes.
Eles não assistem ao espetáculo do sol, fazem o seu próprio. E a alma que é leve os assiste. A alma que é leve registra-lhes o vôo, talvez sem pensar que fotografa um cenário sagrado. Uma das virações de dia do Éden, em que Deus vem conversar com o homem. E Deus conversa. E a alma sente.
(...)
E a alma, leve, vai ser passarinho na vida.
Carrega consigo pores de sol.
Brinca de viver com os amigos, e isso é muito sério. É milagre de amor.
Alma leve não é breve. Porque, diante de telas e vitrines - esses pousos obrigatórios e necessários - ela ainda ama e sonha.
E quem ama e sonha vive pra sempre!
E voa mais feliz, porque não voa sozinho.

No encontro de almas leves todo vôo é bonito e viver tem peso de pluma,
tem gosto de puro hoje.


.........................





*Ingrid Batista, a dona da foto. Mas o nome dela é Pessoa (só porque ela não gosta). Obrigada por ser inspiração, Pessoa!
**Rubem Alves disse.
***Acho que Charles Chaplin disse.
  

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