quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Entre Asas e Raízes


A vida real exige corpo e pés fincados no chão...

Há que se ter peso e consistência para sobreviver.
A alma de sonhos anseia pelo céu dos pássaros...
Há que se ter leveza pra voar, para viver.
Bem aventurados os que conseguem descansar
Atentos, nesse interregno,
A fim de atender, de imediato,
Exigência e anseio quando clamam.
Pra viver: Há tensão
(o descanso faz-se imprescindível)
Pra sonhar: Atenção
(a alma exige labor).

Cinza, com o sol por detrás


Aquele poeta tem alma cinza.
Nem preta, nem  branca. Cinza. 
Porque só a cinza pode ser preta e branca, ao mesmo tempo.
Quando o poeta fala tudo é bonito, tudo é terno, tudo é de verdade.

Aquela garota tem alma cinza. 
Cinza, mas daquela cinza com o sol por detrás.
A cinza que quer ser rosa sem deixar de ser cinza
Porque entende que, com o sol por detrás,
Até a tristeza é bonita.
Aquela garota tem alma cinza,
E quando seus olhos chovem aparece arco-íris.
Seus olhos de arco-íris vêem coloridas as coisas que ninguém consegue ver:
Os barquinhos sobre a água,
A letra que, em precedendo as demais, não quer ser notada,
As folhas deslizando sobre o teto de vidro,
A rede de embalar leitura
...
Aquela garota de alma cinza-rósea tem olhos de arco-íris.
Não dá pra passar por ela sem encantar-se com sua alma, encantada.

Cinza, com o sol por detrás!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A Ponte e Eu





De minha casinha de madeira, 
Que fica tão pertinho das nuvens,
Começa a ponte de meus sonhos acordados.
Já é madrugada e as luzes amarelas da ponte 
Brilham como pequenos sóis noturnos.
A ponte sai de minha casa de madeira que quase toca o céu,
Desce no meio da cidade, mas sobe de novo
E finge que termina do outro lado da cidade.
Mas eu sei que ela nunca termina...
Ela toca o chão de muitos outros mundos.

Lá do alto vejo a cidade inteira...
Todos os carros, fábricas, ruas e pessoas dormem.
Acordados, só a ponte e eu, em vigília.
Quando a manhã chegar e a cidade acordar
Aí então dormiremos.
Apagaremos as luzes e descansaremos tranquilos.
Seremos, então, como a cidade que dorme sossegada
Mesmo sem saber que, do alto, há quem vele seu sono.

Sonho acordada atravessar cidades inteiras,
Tocar o chão sagrado de muitos outros mundos com meus pés de nuvens
(há que se ter leveza nos pés pra pisar chãos sagrados).
Sonho acordada ver a cidade acordar...
Mas já vou dormir, e ela ainda não despertou.
 
E continuamos ali, num diário 'eterno esperar', a ponte e eu...
É sempre noite,
E a cidade sempre dorme,
E a gente sempre sonha, mesmo acordado.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Feito Para o (A)Mar



Triste ver o barco na terra
O barco, feito para o mar.
Triste ver o ódio no homem
O homem, feito para amar.
O Barco só tem sentido no mar,
O Homem só tem sentido no amar.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A Alma Precisa Sair Pra Passear


Chove lá fora. Minha avó costuma dizer quando o tempo nubla: 'o dia tá tão triste hoje'. Triste e bonito, um cinza bonito. Nem branco, nem preto. Cinza! Só o dia cinza pode ser belo e triste. Bendito cinza!

Enquanto as idéias 'fervilhantes' prolongam a cinza manhã, o café, ainda pela metade, esfria na xícara.
Na playlist, hoje é dia de Cartola.
Uma 'pessoa recente', mas já querida, enviou-me 'Cartola' ontem. Uma amiga semeadora. Fiz de minha alma terra boa para boas sementes por causa de pessoas como ela.

Cartola e silêncios conversam em mim. Procuro deixá-los à vontade. Mas observo atenta. Preciosa e necessária conversa.

Cantando, Cartola diz que precisa encontrar-se, e em busca de si, sai pra assistir ao sol, aos rios, aos pássaros. Para conhecer-se, olha para fora. Para encontrar-se, olha com mais atenção para o que não é ele mesmo, mas que, de alguma forma, também o é.

Precisamos, urgentemente, arejar nossos porões.
Nossa alma precisa sair pra passear.

Precisamos dar atenção ao que vemos...
Para que o sol não se resuma a 'calor infernal';
Para que o rio não seja apenas 'água em movimento';
Para que a sinfonia dos cantores-pássaros e sua beleza multiforme não sejam, a nossos ouvidos e olhos, cantos distantes em uníssono e vultos coloridos apenas;
Para que a cinza do dia não seja apenas tristeza.

Nossa alma precisa sair pra passear.
Precisamos arejar nossos porões.

Dante disse que 'sempre nos dana a pressa que nos apossa'. Nossa alma trancou-se numa ampulheta que anda mais depressa que o ponteiro de segundos do relógio na parede diante de nós. A nossa pressa pra sobreviver faz escoar nossa alma como/com a areia. Não vivemos, escorremos. Existimos 'apesar de', ignoramos os 'por causa de'. Sobrevivemos. 'Subvivemos'.
De nossos porões escuros olhamos a vida. Aos nossos olhos, pedra é só pedra mesmo, sempre. Falta-nos poesia nos olhos, não no mundo.
Minha 'amiga semeadora' disse que gosta de sair para olhar barquinhos na água. E me disse também que quando a gente quer sempre acha tempo e ocasião pras nossas paixões. Precisamos achar.

A beleza que enxergamos nas coisas fala muito mais de nós do que das próprias coisas.
Sempre haverá poesia no sol, nos rios, nos pássaros e nos barquinhos sobre a água. Mas, se nos olhos de quem olha não houver beleza, sol, rio, pássaros e barquinhos não passarão de substantivos frios e indiferentes.

Minha amiga semeadora tem poesia nos olhos. Como criança que desbrava mundos novos com seus barquinhos de papel, ela desbrava seus próprios mundos quando leva a alma pra passear na Ribeira e, de seu banco de concreto favorito, seus olhos admiram e brincam com os barquinhos.


Aprendi com Cartola,
Aprendi com ela:

A admiração das coisas que estão para além de si é, ao mesmo tempo, encontro marcado (e sagrado) consigo mesmo.
Nascemos. Renascemos. Vivemos. 'SuperVivemos'.

Livre, leve e sem pressa...

A alma precisa sair pra passear!






terça-feira, 16 de agosto de 2016

FAZ PARTE DO NOSSO SHOW



Observando o relato, em João 2, do primeiro milagre de Jesus no casamento em Caná da Galiléia (a água transformada em vinho), fico esperando chegar o momento apoteótico em que Ele vai interromper a cerimônia e convocar a 'imprensa' pra o 'show da fé' que aconteceria ali, o momento em que vai levantar e dizer no megafone que aquela é a 'noite dos milagres'... Mas não chegou esse momento.
Os empregados enchem os potes de água, os empregados levam a taça ao mestre de cerimônias, o noivo recebe o elogio pelo melhor vinho 'do final'. Não é admiração que Jesus pretende despertar no coração do homem, é fé. Jesus não usa as necessidades do homem pra promover espetáculos, pra conquistar milhares de 'seguidores extasiados' diante de seu poder de operar milagres...
Jesus não precisa disso...
Somos nós que precisamos; somos nós que transformamos as necessidades alheias num espetáculo a fim de mostrar do que somos capazes. A tragédia do outro 'faz parte do nosso show'. Somos nós que precisamos transformar o 'levantar das mãos e o arrependimento' num momento de 'contagem de resultados' do que estamos fazendo. Somos nós. Não Jesus. O coração de Jesus é diferente. É o tipo de coração que deveríamos desejar ter, como discípulos seus, pra lidar com as dores e necessidades do mundo como Ele lidou.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Babel é Aqui


Não é difícil a gente falar. 
Difícil é a gente falar a mesma língua.

Babel é aqui mesmo. 
Cada pessoa é um mundo. Cada mundo um idioma. 

*Precisa-se de humanos "poliglotas". 
Com urgência!