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Gosto de Puro Hoje

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"Você verá que a emoção começa agora
Agora é brincar de viver
Não esquecer, ninguém é o centro do universo
Assim é maior o prazer
...
E eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho
Como sou feliz, eu quero ver feliz

Quem andar comigo, vem"
(Guilherme Arantes)



Enquanto revejo a foto e escuto a música (que mora em minha playlist sagrada) lembro-me do que a *'Pessoa' que registrou esse momento contou a respeito dos pássaros:
"Eles pareciam brincar de fugir um do outro..."

Tantos espetáculos acontecem gratuitamente e graciosamente diante de nossos olhos todos os dias e, pra onde nós estamos olhando que quase nunca vemos? O sol todos os dias descansa no horizonte; algumas pessoas param e assistem. Dão um tempo em suas vidas tumultuadas, tiram de diante de seus olhos as telas lotadas de planilhas, pastas, códigos, pães de cada dia. Descansam seus olhos das vitrines etiquetadas obrigatórias, deitando-os nas redes do 'milagre da beleza'. Bem disse o poeta que *…

Do Parto ou Do Partir

E esta dor não física que sinto desde que me entendo por gente?
Esse incômodo agudo - essa 'dor fina', como diria vovó - donde vem e pra onde quer ir, que não sai do lugar?

Há dias que não penso nela. Mas deixar de pensar não impede o sentir. São dias em que sou toda sentir. Mas, sempre por distração, não por ser capaz de decidir qualquer coisa.
De onde vem esse desejo secreto de querer que as pessoas compreendam o que não soubemos explicar, porque nem a gente mesmo entendeu? Como explicar o que não tem nome? Fico perdida, prefiro calar ou falar do que sinto menos, mas sei nomear.
De onde vem essa calma súbita sem precedente após? Não houve um fim de dor, nem um fim de nada, pra essa calma após. Ficou confuso isso? Achei que sim. O após está no meio - entre o fim e a calma. Ficou claro? Porque não gosto de imaginar uma dança em que a calma fique espremida entre a dor e o após. Gosto quando ela é a dama que conduz a dança, podendo inclusive abandoná-la no meio da música, disso não …

Refluxos / Anti-Verdade Paliativa

Há pessoas (não sei se muitas) pra quem falar/ser verdade não é mais uma quase angústia de morte...
Corajosas - Assustadoras - Subversivas.

Como a gente se habitua a mentir - desde a presença (ou será ausência?) da mãe diante de suas visitas indesejadas, até nosso sentir e nossos quereres já de adultos - também é possível habituarmo-nos à verdade, suponho.
A maior diferença, talvez, esteja na dor que a verdade pode causar no ventre, no estômago, na garganta. A dor de antes dela virar verbo. Pra maioria de nós, mentir já é quase natural. Parece que nascemos fazendo isso em vez de chorando. A gente aprendeu tão cedo, que nossa flexibilidade e inocência infantis nem deixaram doer. Claro que não era mentira aquele primeiro choro, foi depois dele que aprendemos a mentir. Antes de aprendermos a mentir o choro tivemos que aprender a mentir o riso.  É que num mundo de mentira, não há como a verdade não doer. Ela dói. Dói no estômago, dói na garganta, dói na boca de quem diz. Por isso a gente conv…

Reencontros, Úteros de Renascer

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O ano finda com reencontros. Reencontrar quem a gente ama nos ajuda a lembrarmo-nos quem a gente, de fato, é. Reencontrar pessoas que fazem parte da constituição de nossa alma é uma volta a nós mesmos. Pois, se tem uma coisa que a vida sabe fazer bem, é levar-nos para longe de nós mesmos. No disparar dos ponteiros, a gente corre tanto atrás do que nem sabemos bem, que deixamos a nós próprios lá no passado, no lugar em que o chronos começou a ditar o ritmo da vida. Porque a alma não mede a vida com ponteiros e números, mas com momentos. A alma sente, por isso avança. É pelo sentir que ela sai do lugar. Não de segundo em segundo, mas de sentir em sentir. Por quê a gente se sente em casa dentro dos abraços que a distância acumulou? Penso que é porque a alma mora onde o sentir é mútuo. A alma sabe, embora por vezes prefira ignorar, que deve lançar alicerces ou ancorar somente onde há verdade. Há encontros de alma que se tornam verdadeiros marcos de nós, nos zeram, nos ressignificam. Há encontros que são ve…

Sonhos em Agualusa

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Leio Agualusa* e termino com vontade de continuar. Há autores que não queremos largar mais. Um livro inteiro sobre sonhos. Sonhos que cada um tem e que, no fim, todos sonham juntos. Pus-me a pensar a respeito...
Não entendo muito de sonhos e entendo só um pouco de realidade, vivo quase sempre sem entendê-la o suficiente. Mas falar de sonho pra mim é coisa difícil, mais do que de vida real. Agualusa diz que ‘os sonhos são o que temos de mais íntimo’ e que ‘a intimidade é assustadora.’ Talvez seja isso, talvez por isso eu não sonhe tanto. Acho que a gente foge é da realidade quando vive sonhando. Mas não tem jeito, ela sabe impor-se. Tarefa difícil deve ser essa de manter-se sonhador. A vida não desiste de tentar exaurir os sonhos de quem sonha. Leio livros para aprender a pensar a vida de um jeito mais leve. Ela é, por vezes, ácida e insustentável. Leio para olhá-la e não ver dela apenas nudez e crueza. Leio para ganhar olhos que vejam a história por trás de cada coisa, por mínima e simples que seja. L…

Sobre Adiamentos

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Há que se ter cuidado com os adiamentos. Há os necessários,
mas costumamos confundi-los todos.
Por vezes não raras maquiamos o hoje na ilusão de que o rosto
real não terá feito rugas quando descoberto amanhã.
Dores são inadiáveis. Não há verniz que esconda para sempre
as marcas da dor que nos negamos a tratar hoje. A dor
negligenciada no hoje, por mais simples que pareça, pode
tornar-se intratável num amanhã que parecerá um quartinho de
bagunça que não comporta mais tantos adiamentos.
Fiquei quase 4 horas no pátio de espera, um pátio semi coberto,
(metade sombra, metade luz). Eu também não era inteira
sombra, nem inteira luz. A luz pura consegue até cegar.
Mudando as doses a luz é multi útil. Li um livro inteiro sob a
luz daquele sol.
Sentou-se ao meu lado uma velhinha de 99 anos, o que ela fez
questão de contar-me orgulhosa. A iminente, e eminente,
centenária tem orgulho dos anos que acumula e até dos danos
que a trouxeram ao hospital pra trocar curativos diariamente.
Ela contava, sobrancelha direita …

Grãos de Terra, Partículas de Céu

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Dia desses dizíamos em uma conversa que nosso corpo, quando cansado ou doente, pende para baixo. O pó que somos quer voltar para a terra de onde veio.  Hoje por várias vezes desejei, ou o pó de mim desejou, abraçar-me pela raiz. Quis voltar ao estado de semente de terra, grão de areia por germinar. Falávamos sobre a importância de diminuirmos o ritmo a fim de não deixarmos os outros para trás. Hoje penso que, igualmente importante na jornada, é ter (e ser) gente que estimule o outro a ir além do que acredita conseguir. Gente que não alimenta em nós a fome de voltarmos ao pó. Gente que sabe e nos mostra quantas vezes forem necessárias que dentro desse corpo que, exausto, pende pra o chão, há um espírito livre que existe para voar. Um espírito que pende para o alto e que só descansa e se refaz nas asas do vento. Somos grão, mas somos também ar. Sementes de vento, partículas de céu. Devemos, claro, conhecer nossos próprios limites; afinal, descansar é sagrado. Não pode ser longeva a alma que negligenci…

O Que O Pássaro Me Ensinou

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De uns meses pra cá tenho olhado mais para o céu. Desses meses pra lá meu olhar era mais plano, cerviz endurecida pelo hábito. Olho mais pela janela procurando a poesia de cada dia, escrita no céu sempre inédito; olho mais para as árvores sendo sopradas, por brisa ou ventania; olho mais para o céu dos pássaros e observo com mais vontade seu voo. Vê-los voando me faz lembrar, encantada, da fala do poeta quando diz que "Deus fez o céu para justificar os pássaros¹". Dia desses, a caminho de mais um consultório, pus-me a observar os pássaros. À minha direita, um bando sobrevoava o mar, acho que todos em busca de comida ou de companhia. Mas, à minha esquerda, um único pássaro (com pleonasmo e tudo) sobrevoava fábricas e casas e avenida. Fiquei pensando em seus voos. Fiquei pensando na liberdade deles. Lá em cima tudo é imensidão, e de lá, o nosso aqui também é muito mais amplo do que o que nós mesmos vemos em nosso 'estar'. Como voam despreocupados! Como é leve seu voar! …