Refluxos / Anti-Verdade Paliativa


Há pessoas (não sei se muitas) pra quem falar/ser verdade não é mais uma quase angústia de morte...
Corajosas - Assustadoras - Subversivas.

Como a gente se habitua a mentir - desde a presença (ou será ausência?) da mãe diante de suas visitas indesejadas, até nosso sentir e nossos quereres já de adultos - também é possível habituarmo-nos à verdade, suponho.

A maior diferença, talvez, esteja na dor que a verdade pode causar no ventre, no estômago, na garganta. A dor de antes dela virar verbo. Pra maioria de nós, mentir já é quase natural. Parece que nascemos fazendo isso em vez de chorando. A gente aprendeu tão cedo, que nossa flexibilidade e inocência infantis nem deixaram doer. Claro que não era mentira aquele primeiro choro, foi depois dele que aprendemos a mentir. Antes de aprendermos a mentir o choro tivemos que aprender a mentir o riso. 
É que num mundo de mentira, não há como a verdade não doer. Ela dói. Dói no estômago, dói na garganta, dói na boca de quem diz. Por isso a gente convive com um refluxo que tratamos paliativamente, com doses diárias cada vez maiores de 'anti-verdade'. Com o tempo corrói-se em nós o caminho da verdade que a gente não deixa sair, não deixa acontecer. De tanto não aconte-Ser, a gente passa pelo espelho e não se sabe mais.
O fato é que pra não morrermos feridos e não sendo, a gente precisa decidir suportar a dor - nossa e a de quem ouve. Para sermos inteiros e gozarmos (antes do fim) de relações mais honestas, precisamos lutar contra o vício da 'anti-verdade paliativa nossa de cada dia'. 
Claro que vai doer! Já aprendemos a mentir o choro, e até o riso; já aprendemos a dizer sim no lugar do não de dentro e não no lugar do sim de dentro. Sins e nãos ácidos, refluxo. A gente já aprendeu a usar máscara de satisfação sobre a careta de quem comeu muito e passa mal. 
Claro que vai doer! A gente não tem mais nervos flexíveis e inocência pueris. Aprender agora dói mais do que antes. Éramos terrenos férteis, agora somos aridez sob camada grossa de concreto. Nossos pré-conceitos e autodefesa são granadas com pinos sensíveis a movimentos bruscos ou a delicadezas inesperadas.
Claro que vai doer! E pode ser que sobre pouca coisa disso que somos, de onde estamos e dos que ainda estão. Mas a gente vai ganhar muito mais do que perder. 
Os choros e risos serão como os primeiros que demos, agora sabendo-lhes os nomes. O som da verdade feita verbo vai ser cantiga de paz embalando nosso sono de cada dia. Não seremos mais estranhos diante de nosso espelho. Nossos amigos estranhando-nos e partindo? Seria isso pior do que termos vivido tanto tempo como estranhos e idos de nós mesmos? 
Claro que vai doer! Não existe jeito indolor de reconstruir caminhos de verdade que a mentira (e as muitas verdades não acontecidas) corroeram. Mas é bonito imaginar nossas crianças engatinhando, atrás de nós, por esses caminhos, livres pra chorar ou sorrir choros e risos não fingidos. Desobrigados de sair de casa com máscaras de contentamento no bolso. Crescendo humanos felizes por reconhecerem no espelho os mesmos que pisam o chão da vida... eles e nós. Eles, recém-nascidos. Nós, recém-renascidos. Mãos dadas nos caminhos da verdade.
Como bem disse Clarice: "Antes o sofrimento legítimo que o prazer forçado". 
Claro que vai doer! 
Guimarães Rosa diz desde sempre que "o que a vida pede da gente é coragem".

Claro que vai doer...
CORAGEM!


Comentários

  1. Eu fico aqui querendo descrever o quanto esse texto e necessário, é urgente. Quero saber elogiá-los com as melhores palavras que eu sei, mas não tô sabendo como fazer isso bem. Só posso agradecer mesmo. Obrigada pelo pensamento, pelos sentimentos e pelas palavras, Sílvia Lucia ♥️

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