Multidão Nos Olhos / Transitoriedade

Da cadeira daquele aeroporto sou toda olhos.
É noite, e o que posso ver nesse 'ângulo-180' já satisfaz meu interesse e preenche toda minha mente de 'ferventes ponderações'. Prefiro não virar-me. Só hoje, prefiro esforçar-me por compreender o que está ao alcance de meus olhos do que contorcer-me para olhar tudo. Geralmente, quanto mais coisas olho, menos coisas consigo ver.
Há uma multidão em meus olhos!
As luzes são muitas e o espaço cercado pelas 'paredes de vidro' é, na minha imaginação, ad infinitum do lado de dentro. Aos meus olhos, o lado de fora é que tem limites. Lado de fora, as luzes são amarelas e os vários aviões, uns de chegada e outros de saída, cumprem seus itinerários, imperturbáveis. Somente passo os olhos neles. Apesar da imponência do mundo do lado de fora, com suas máquinas e luzes, é o mundo do lado de cá que me detém em sua infinitude. Lá fora o mundo é grande, aqui ele é infinito. Nesse momento é a este mundo que meus olhos pertencem. E, este mundo, aos meus olhos.
Perco-me e encontro-me nessa multidão que invadiu meus olhos e tomou de assalto meus pensamentos. Vejo de meu lugar, em reverente silêncio, as milhares de pessoas que passam. Naquele momento, como em um flash, vejo passageiros de várias horas de um dia que parece eterno. O tempo parece correr-parado. O meu tempo é sempre. Um sempre de poucos segundos. Poucos segundos que duram pra sempre.
Milhares de "passageiros-passageiros" se esbarram, mas nunca se encontram. Observo, aflita, os milhares de encontros superficiais entre pessoas cheias de profundezas. O sentimento de transitoriedade me domina e me sufoca. Meu aeroporto é mais do que um lugar, é um lugar-sentimento.
De repente percebo que aquele lugar de minha visão noturna é um 'ideograma'. A vida (e seus encontros/desencontros) representada de uma maneira que caiba em meus olhos, que caiba em mim.
A vida é feita desses esbarrões entre 'passageiros-passageiros'. É como vemos a maioria dos que passam por nós. Parece que poucos ali entendem que o outro não é apenas uma nuvem vazia indo pra algum lugar distante.
Parece que ninguém sabe que, sob a aparência de efemeridade, transitoriedade e indiferença alheia (e mútua) o outro leva pras alturas (ou desce das alturas) tanta profundidade em si.
Somente agora me foi revelado esse precioso mistério.
Eu, daquela cadeira, sou cada pessoa que descobriu que a multidão rasa é feita de milhares de indivíduos-profundezas.
Em mim e para além de mim, um processo de recomeço se inicia. Preciso estar pronta para cada encontro posterior a essa visão. Desejo menos esbarrões e mais encontros. Agora sei que aquele que sentar-se na cadeira ao lado da minha não é um passageiro-passageiro e, que seu tempo também é sempre, ainda que, como eu, dure poucos segundos.
Cada pessoa é um mundo.
Somos milhares de mundos.
Preciso falar várias línguas.
Sou feita de uma história e de uma Mensagem. Sou uma história que a Mensagem encontrou; Não falo nada de mim, apesar de ser profundeza, porque a mensagem é mais profunda do que eu. Não falo nada de mim, mas sou eu quem fala. Fundem-se, duas em uma, história e Mensagem.
A fonte dessa visão-revelação conhece, e ninguém mais, cada indivíduo-profundeza que passa. Há um só que sabe falar a língua de todas as Pessoas-Mundo; cada língua, de cada pessoa. Ele trava conversas profundas (preenchendo-lhes a mente de ferventes ponderações, como comigo) e eu, da minha cadeira, desejo participar dessas conversas alheias, gritantemente silenciosas.
Preciso falar a língua delas. Preciso falar a língua Dele. Quero ser mais do que 'passageiro' na vida de 'passageiros' que encontrar.
Cada pessoa é um mundo. Um vasto mundo. Quem apenas esbarra em uma 'pessoa-profundeza' e segue seu caminho sem deter-se nela, perde preciosa oportunidade de conhecer um MUNDO inteiro.
Há uma multidão em meus olhos...

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