Sobre Adiamentos


Há que se ter cuidado com os adiamentos. Há os necessários,

mas costumamos confundi-los todos.
Por vezes não raras maquiamos o hoje na ilusão de que o rosto
real não terá feito rugas quando descoberto amanhã.
Dores são inadiáveis. Não há verniz que esconda para sempre
as marcas da dor que nos negamos a tratar hoje. A dor
negligenciada no hoje, por mais simples que pareça, pode
tornar-se intratável num amanhã que parecerá um quartinho de
bagunça que não comporta mais tantos adiamentos.
Fiquei quase 4 horas no pátio de espera, um pátio semi coberto,
(metade sombra, metade luz). Eu também não era inteira
sombra, nem inteira luz. A luz pura consegue até cegar.
Mudando as doses a luz é multi útil. Li um livro inteiro sob a
luz daquele sol.
Sentou-se ao meu lado uma velhinha de 99 anos, o que ela fez
questão de contar-me orgulhosa. A iminente, e eminente,
centenária tem orgulho dos anos que acumula e até dos danos
que a trouxeram ao hospital pra trocar curativos diariamente.
Ela contava, sobrancelha direita levantada e voz firme:
- Essa semana caí, minha filha. Só não morri porque Deus não
deixou. Entrego a Ele minha vida todos os dias. Eu não tenho
nada, mas os invejosos acham que tenho. Digo que não tenho
porque quando eu for embora tudo vai ficar aí e ser de outra
pessoa. Vim de casa até aqui andando sozinha. Eu faço tudo
sozinha, minha filha!”
Contou-me isso apontando para um curativo no braço e outro
no lábio superior. Era visível a passagem de seu rosto pelos
anos. Os olhos eram de um brilho de juventude bem vivida.
Não era do ter que orgulhava-se aos 99 anos, era de SER.
De 
ainda poder ser, ainda poder ir, ainda poder estabacar-se no
chão sozinha. Ela redescobre o mundo diariamente, do mesmo
jeito que a criancinha o descobre, cheia de brilho nos olhos. Gente
assim não morre antes de morrer. Penso que nem depois!
Ainda no pátio vi chegarem e saírem algumas mamães com seus
bebês, alguns deles por completar seu primeiro aninho e outros já
beirando década. Mas não há quem ouse dizer para aquelas mães dos
decanos que eles não são bebês como os outros.
Bebês e pombos brincam bem perto de meus pés, mas só as crianças
tropeçam neles. Pombos são menos distraídos e menos crédulos
também. Até um pé calçando sapatos com ternas estampas de
corações é capaz de um chute cruel. A criança não sabe disso ainda.
Quando for crescendo talvez comece a desconfiar do mundo, como
os pombos e os adultos.
Em observando dali, tive saudades do tempo em que qualquer
bonequinho, brincadeira de esconder ou correr, musiquinha festiva ou
o rosto da mamãe ou do papai fazia a dor sumir; tempo de ainda não
saber diferenciar um pátio de hospital de um parquinho de divertir-se.
Sinto falta de ter 99 anos e, como a criancinha, SER – só ser, só que
consciente de estar sendo.
Já a caminho de casa decido não deixar o hoje pra resolver amanhã.
Tenho vontade de viver o hoje intensamente como as criancinhas no
pátio, porque já tenho 99 anos e os amanhãs são incertos. Mas eles
são o que sempre foram (incertos), eu é que estou consciente do que crianças e
velhinhos parecem já entender: só o hoje existe!





*Imagem extraída de: Revista Pais&Filhos, em "Por que os avós são tão importantes?"

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